Com a aposentadoria de Warren Buffett da presidência da Berkshire Hathaway no fim de 2025, depois de 60 anos no cargo, o mercado financeiro tratou de inventariar as lições que ele deixa. A maioria das sínteses se concentra no óbvio: paciência, longo prazo, empresas sólidas. Mas há um princípio que aparece com menos frequência nessas listas, talvez por ser simples demais para parecer sofisticado: ao longo de seis décadas, Buffett nunca buscou contornar as regras do jogo que estava jogando.

Uma matéria da Farm Progress, ao transpor as lições de Buffett para o contexto de produtores rurais, tocou em algo que ressoa muito além do campo: a observação de que muitos gestores gastam mais energia tentando achar brechas do que simplesmente cumprindo o que as regras exigem. A análise usa a metáfora dos "base hits", os acertos consistentes que acumulam, em contraste com a busca pelo "home run", aquele grande golpe que vai resolver tudo de uma vez. Buffett, ao longo de décadas, escolheu os primeiros.

O que me parece mais profundo nessa distinção é que ela não é apenas sobre compliance ou gestão de risco, embora seja também isso. É sobre onde o empresário concentra sua atenção cognitiva. Toda vez que alguém passa horas pensando em como estruturar uma operação para pagar menos imposto de um jeito questionável, ou em como contornar uma exigência regulatória sem enfrentá-la de frente, essas horas são subtraídas de algo. De um processo que poderia ser melhorado, de um cliente que poderia ser bem atendido, de uma decisão estratégica que ficou para depois.

No Brasil, onde a carga regulatória é genuinamente complexa e a tentação do "jeitinho" existe há décadas como solução de sobrevivência, essa reflexão tem um peso particular. Há uma diferença, porém, que vale nomear com cuidado: entre otimizar a operação dentro das regras, o que é inteligência de gestão, e gastar energia tentando operar nas margens do que é aceitável, o que é um risco que tende a crescer com o tempo e com o tamanho da empresa.

A conformidade, quando vista apenas como obrigação, pesa. Quando vista como o piso a partir do qual se constrói, ela libera. Uma empresa que opera com clareza sobre suas obrigações, que sabe exatamente o que deve e quando, que não carrega passivos escondidos nem ansiedade regulatória crônica, tem uma capacidade de planejamento que empresas em conflito permanente com as regras simplesmente não conseguem ter. Isso, ao longo de muitos trimestres, equivale a muito mais do que qualquer atalho teria oferecido.

Buffett nunca chamou consistência de virtude. Ele chamou de método.