Uma pesquisa divulgada pela CartaCapital mostrou que 86% das empresas brasileiras projetam crescimento de faturamento até 2026, mas uma parcela expressiva dessas mesmas empresas enfrenta redução de margem de lucro. O fenômeno tem nome técnico, mas o que ele descreve é algo que o dono de PME reconhece sem precisar de definição: você vende mais, trabalha mais, contrata mais, e no fim do mês o saldo não reflete o esforço.

Fiquei pensando nisso por alguns dias. Há algo na lógica do crescimento pelo faturamento que é quase intuitiva demais para ser questionada. Vender é o verbo que a cultura empresarial mais celebra, e celebrar vendas tem sua razão de ser. Mas a pergunta que raramente aparece na celebração é: a que custo essa venda foi feita? Qual processo foi necessário para entregá-la? Quanto da operação foi improviso e quanto foi sistema?

O que parece ser a raiz desse descasamento entre faturamento e lucro, em boa medida, é a ausência de arquitetura operacional que acompanhe o crescimento da receita. Quando uma empresa cresce vendendo, ela cresce também em complexidade: mais clientes, mais entregas, mais variáveis. Se a operação não foi construída para escalar, essa complexidade vira custo. Custo de retrabalho, de reposição, de horas do dono resolvendo o que deveria estar num processo. E custo, ao contrário de faturamento, não ganha manchete.

Há uma distinção que tende a ser negligenciada entre empresas que crescem de forma saudável e aquelas que crescem para trás: as primeiras tratam a operação como um ativo que precisa de projeto, e não como uma consequência natural do volume. Cada venda entregue por um sistema previsível tem custo conhecido e margem controlada. Cada venda entregue na raça, pelo esforço de alguém que resolveu o problema na hora, carrega um custo invisível que só aparece quando o caixa fecha.

Em 2026, com a mudança na tributação do Lucro Presumido afetando empresas que faturam acima de R$ 5 milhões, esse problema ganha uma camada a mais. Crescer sem otimizar processos e sem revisar a estrutura tributária pode significar pagar mais imposto sobre um lucro que, na prática, não existe. O faturamento sobe, a presunção sobe junto, e o caixa fica onde estava.

A questão, ao fim, não é se crescer é perigoso. É se o crescimento está sendo construído sobre sistemas ou sobre heróis.